sentença
A Fé Que Aproxima e a Fé Que Expulsa
Minha mãe passou por quase todas as religiões que cruzaram seu caminho.
Hoje, olhando para trás, percebo que ela não procurava exatamente Deus. Procurava alívio. Procurava proteção. Procurava respostas para dores que jamais conseguiu nomear direito. Como milhões de pessoas simples, ela caminhava de religião em religião carregando uma esperança silenciosa de que, em algum lugar, existisse finalmente uma paz que coubesse dentro dela.
E eu fui junto.
Fui criança dentro de igrejas católicas cheias de santos silenciosos e velas queimando lentamente. Fui menino sentado em bancos de madeira ouvindo pastores gritarem sobre pecado, salvação e inferno. Frequentei cultos, reuniões, campanhas, correntes, templos improvisados, orações coletivas, vigílias e manifestações espirituais que eu sequer compreendia.
Eu apenas acompanhava minha mãe.
Naquele tempo, eu não tinha entendimento religioso, filosófico ou psicológico para interpretar nada. Tudo me parecia apenas um grande teatro misterioso dos adultos. As pessoas choravam, gritavam, desmaiavam, levantavam as mãos, falavam sobre espíritos, demônios, milagres e libertações enquanto eu observava tudo tentando entender qual era exatamente o segredo que todos pareciam enxergar menos eu.
Talvez eu tenha passado a vida inteira observando sem pertencer completamente.
Minha mãe mudava de religião como quem tenta encontrar um médico capaz de curar uma doença invisível. E durante um tempo, ela ainda transitava entre crenças diferentes com certa naturalidade. Conversava com benzedeiras, aceitava simpatias populares, escutava histórias espirituais e respeitava diferentes formas de fé.
Até que um dia ela se tornou evangélica.
E não apenas evangélica.
Ela se tornou rígida.
A religião que antes parecia busca virou certeza absoluta. O mundo passou a ser dividido entre salvos e condenados. Entre luz e trevas. Entre Deus e o diabo. E tudo aquilo que antes fazia parte da caminhada espiritual dela começou a ser tratado como algo maligno.
Os centros tornaram-se demoníacos.
As entidades tornaram-se demônios.
As imagens tornaram-se idolatria.
As outras religiões passaram a representar perigo espiritual.
E eu também me tornei um problema espiritual.
Minha sexualidade passou lentamente a ocupar um lugar de condenação dentro da visão religiosa dela. Não era mais apenas um filho. Eu era um filho em risco. Um filho “desviado”. Um filho que precisava ser corrigido por Deus.
Durante muito tempo da minha vida, tentei me consertar.
Hoje essa palavra me dói profundamente.
Porque ninguém deveria crescer acreditando que precisa deixar de ser quem é para merecer amor.
Mas eu tentei.
Tentei ser cristão da forma que esperavam. Tentei me encaixar em cultos, doutrinas e orações que prometiam transformação. Tentei silenciar partes inteiras de mim para preservar o vínculo com minha mãe. Tentei acreditar que talvez Deus realmente quisesse que eu me tornasse outra pessoa.
E o mais cruel é que, por muitos anos, eu não estava lutando apenas contra a religião. Eu estava lutando contra o medo de perder minha mãe emocionalmente.
Talvez algumas pessoas nunca entendam o que significa sentir-se condenado dentro da própria casa.
Não expulso fisicamente, mas espiritualmente rejeitado.
Existe uma violência silenciosa em ser constantemente visto como alguém errado diante de Deus.
Os anos passaram.
A distância cresceu.
Quase trinta anos de afastamento emocional se construíram entre nós como um muro invisível levantado tijolo por tijolo pela intolerância religiosa, pelas dores não conversadas e pelas expectativas impossíveis de serem cumpridas.
E então a vida, com sua ironia brutal, fez algo impossível de prever.
Hoje minha mãe mora comigo.
Hoje sou eu quem cuida dela.
Hoje sou eu quem organiza seus remédios, observa seus esquecimentos, acompanha sua fragilidade e testemunha lentamente a demência apagando partes inteiras de sua memória.
E junto com as lembranças, a doença também apagou certas certezas religiosas.
Hoje ela já não se lembra completamente de que sou gay.
Hoje ela já não sustenta com firmeza as condenações religiosas que sustentou por tantos anos.
Hoje, em alguns momentos, ela sequer parece lembrar plenamente da mulher crente que se tornou.
E existe algo profundamente doloroso e estranho nisso tudo.
Porque enquanto a mente dela se desfaz lentamente, algumas barreiras também desapareceram.
Às vezes penso que a doença demoliu muros que o amor sozinho não conseguiu derrubar durante décadas.
E então, naquele centro espiritual onde estive recentemente, esse pensamento me atravessou de maneira quase cruel.
Enquanto observava as manifestações religiosas, as incorporações e as pessoas buscando conforto espiritual, imaginei minha mãe lúcida ali comigo.
Imaginei seu olhar de reprovação.
Imaginei o escândalo espiritual que aquilo representaria para ela.
Na visão religiosa que ela construiu ao longo dos anos, eu estaria entrando em território demoníaco. Estaria me contaminando espiritualmente. Estaria desagradando a Deus mais uma vez.
E aquilo me atingiu profundamente.
Porque percebi que, mesmo depois de tantos anos, ainda existe dentro de mim um menino tentando não decepcionar a própria mãe.
Mesmo adulto.
Mesmo cansado.
Mesmo consciente de tudo.
Ainda existe uma parte minha que sofre ao imaginar seu julgamento.
E talvez essa seja uma das marcas mais profundas da religião quando ela atravessa relações familiares: ela deixa culpas que sobrevivem até à lógica.
O mais estranho de tudo é perceber a contradição humana.
A mulher que hoje condenaria minha presença em um centro espiritual foi a mesma mulher que um dia me levou pela mão a inúmeras experiências religiosas diferentes. Ela mesma transitou entre crenças, rituais e manifestações espirituais antes de transformar tudo aquilo em pecado.
Isso me faz pensar em como as religiões não apenas oferecem fé. Elas também reorganizam memórias. Reescrevem o passado. Redesenham identidades. A pessoa passa a negar partes inteiras da própria história para conseguir sustentar a nova verdade absoluta que abraçou.
E talvez minha mãe tenha feito exatamente isso.
Talvez tenha precisado apagar antigas versões de si mesma para sobreviver dentro da nova fé.
Hoje, enquanto observo sua fragilidade, sinto algo difícil de explicar.
Não existe mais raiva.
Talvez exista tristeza.
Talvez compaixão.
Talvez um luto estranho por tudo o que poderíamos ter vivido se a religião não tivesse transformado amor em julgamento.
Porque no fundo, acredito que minha mãe me amava sinceramente.
Mas também acredito que ela temia sinceramente pelo meu destino espiritual.
E talvez esse seja um dos maiores dramas humanos: quando o amor de alguém passa a ser mediado pelo medo religioso.
Hoje ela já não consegue sustentar aquelas condenações com a mesma força.
A mente cansou.
As memórias se embaralharam.
As certezas desapareceram.
E às vezes fico pensando se, no final da vida, Deus não acaba levando embora justamente aquilo que os seres humanos passam décadas usando para se separar uns dos outros.
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