perdido

Houve um tempo em que eu acreditava, sinceramente, que a vida era longa demais para acabar rápido. O futuro parecia um território inesgotável. Eu ouvia Legião Urbana cantar que “temos todo o tempo do mundo” e aquilo não parecia poesia. Parecia verdade. A juventude possui essa ilusão bonita e perigosa de que os dias nunca terminam. A gente vive como se o amanhã estivesse garantido, como se sempre houvesse outra chance esperando pacientemente mais adiante.
Naquele tempo, o relógio existia apenas como detalhe. As horas não pesavam nos ombros. Os sonhos eram leves. Viajar era questão de escolher o destino. Rever amigos dependia apenas de combinar um sábado qualquer. Amar parecia algo permanente, quase indestrutível. Até a tristeza passava rápido, porque a própria vida tratava de distrair a gente antes que a dor criasse raízes profundas.
Eu caminhava pela existência como alguém que atravessa um quintal enorme, sem medo de encontrar o muro.
Mas o tempo é silencioso. E talvez esse seja o seu maior poder.
Ele não arranca as coisas de nós de uma vez. Ele vai levando aos poucos. Vai roubando discretamente enquanto estamos ocupados demais tentando sobreviver. Quando percebemos, já não somos os mesmos. Já não temos as mesmas pessoas ao redor. Já não carregamos a mesma disposição no corpo nem a mesma coragem no coração.
Hoje, perto dos cinquenta anos, entendo que o tempo não passou apenas. Ele me atravessou.
Levou pessoas queridas, levou oportunidades que imaginei eternas, levou partes inteiras da minha energia. Alguns sonhos não morreram por falta de desejo. Morreram por excesso de adiamento. O “depois” foi se transformando num lugar perigoso, porque muitas coisas não sobrevivem nele.
A vida adulta é uma máquina silenciosa de consumir dias.
Quando somos jovens, imaginamos que o desgaste vem das grandes tragédias. Mas não é assim. O que realmente cansa são as pequenas repetições diárias. É acordar já preocupado antes mesmo de abrir completamente os olhos. É trabalhar cansado para continuar vivendo cansado. É resolver problemas que nunca terminam. É pagar contas emocionais que ninguém vê. É sustentar a vida dos outros enquanto partes da nossa própria vida vão ficando esquecidas em algum canto.
Tenho sentido isso de forma ainda mais intensa nos últimos anos, principalmente cuidando da minha mãe.
Existe algo profundamente doloroso em acompanhar o envelhecimento de quem um dia foi nosso abrigo. A mãe que antes segurava nossa mão passa, aos poucos, a precisar da nossa. E junto desse amor aparece um cansaço difícil de admitir. Porque o filho que cuida também sofre. Também sente medo. Também se desgasta. Também tem dias em que gostaria apenas de desaparecer por algumas horas para respirar longe das responsabilidades.
Pouca gente fala disso porque parece egoísmo confessar o peso do cuidado. Mas não é egoísmo. É humanidade.
Há noites em que sinto que o tempo deixou de me pertencer. O relógio continua andando, os dias continuam existindo, mas quase nenhum pedaço deles sobra verdadeiramente para mim. Meu tempo se dissolve entre preocupações, remédios, compromissos, trabalho, cansaço e pequenas urgências que nunca acabam.
E quando percebo, o dia terminou.
Depois termina a semana.
Depois o ano.
E aquele homem que um dia sonhou pegar estrada, conhecer lugares, reencontrar amigos e viver experiências diferentes continua sentado em silêncio dentro de mim, esperando uma folga da existência que quase nunca chega.
As viagens ficaram para depois.
Os encontros ficaram para depois.
Os planos ficaram para depois.
E o depois, quase sempre, é onde as coisas começam a morrer devagar.
Muitos amigos desapareceram sem briga, sem despedida, sem qualquer ruptura dramática. Apenas foram sendo engolidos pela própria vida, exatamente como eu também fui. Alguns continuam existindo em algum lugar, mas já não conseguimos nos encontrar dentro do mesmo tempo. E talvez essa seja uma das tristezas mais profundas da maturidade: descobrir que gostar de alguém não garante permanência.
As pessoas vão ficando distantes como fotografias antigas perdendo a cor.
Às vezes penso que estamos todos exaustos demais para viver aquilo que realmente desejávamos viver. Vivemos administrando obrigações enquanto a vida verdadeira vai sendo adiada em silêncio.
O mais estranho é perceber que ainda tenho horas, compromissos, calendários e rotinas… mas sinto que já não tenho tempo.
Porque tempo não é apenas aquilo que o relógio marca.
Tempo é aquilo que sobra da vida depois que a obrigação termina.
E ultimamente quase nada sobra.
Talvez eu só tenha entendido agora o que aquela música realmente queria dizer. Quando era jovem, eu ouvia “Tempo Perdido” pensando no futuro. Hoje eu escuto pensando no passado.
E existe uma diferença enorme entre essas duas formas de ouvir.
Na juventude, a música parecia uma promessa infinita de caminhos. Hoje ela soa como um espelho. Um espelho que mostra não apenas aquilo que vivi, mas também tudo aquilo que ficou pelo caminho enquanto eu tentava simplesmente continuar existindo.
Mesmo assim, ainda existe dentro de mim uma pequena resistência.
Uma vontade silenciosa de acreditar que talvez ainda dê tempo para alguma coisa.
Talvez não para realizar todos os sonhos que ficaram para trás. Talvez não para recuperar os anos consumidos pela sobrevivência. Mas talvez ainda exista tempo para salvar pequenos pedaços da vida antes que ela passe completamente.
Talvez ainda dê tempo para um café longo com alguém querido.
Para uma conversa sem pressa.
Para uma viagem simples.
Para olhar o céu no fim da tarde sem pensar imediatamente no que preciso resolver depois.
Talvez ainda dê tempo para reencontrar quem eu era antes de me tornar apenas alguém ocupado.
Porque no fim das contas, o tempo não se perde de uma vez só. Ele escapa lentamente pelas distrações da sobrevivência. E talvez viver seja exatamente isso: tentar resgatar, entre um compromisso e outro, alguns instantes que ainda consigam fazer sentido.
Talvez eu não tenha vivido a vida da forma como imaginei quando era jovem. Talvez muitos sonhos tenham ficado pelo caminho. Mas existe uma verdade difícil e bonita nisso tudo: mesmo cansado, mesmo consumido pelas responsabilidades, eu amei dentro do tempo que me foi possível.
E talvez seja isso que realmente permanece quando todo o resto começa a desaparecer.

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